15.9.04

O Primeiro Morto

Visto daqui o céu parece uma parede mal pintada em tons de ocre e tijolo com umas pinceladas de vermelho sem qualquer critério.
Não há nada a fazer, hoje é o último dia em que o Lourenço vai poder ver o pôr-do-sol, para o Lourenço amanhã vai ser o dia mais curto da sua vida, não chegará a ver o Sol.

Agora, o olhar perdido virado para o céu não vê o Alouette III que vem a padejar, esfarrapando o cacimbo e pousando como uma libélula gigante na clareira que os soldados abriram a golpes de catana. Ele vai embora na barriga da libélula e nós ficamos cá em baixo pequeninos e insignificantes como ácaros na alcatifa imensa da selva.

Não tivemos tempo de chorar a sua morte.

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