4.1.18

O Sorriso do Santos

Que faço eu aqui?
O céu está estranho hoje. À minha frente os soldados caminham como sonâmbulos. Olho para trás. Sonâmbulos também.
Atrás das duas filas de soldados a longa coluna de viaturas, todas em péssimo estado. Sonâmbulas.
O ronronar dos motores, o gemido metálico das carroçarias meias destroçadas, o som áspero das picas a furarem a areia em busca das minas, o ranger da areia debaixo das botas, o respirar do soldado à minha frente; e por cima destes sons todos, um silêncio de funeral. A natureza parece demonstrar uma clara hostilidade contra nós.
Um Fiat passa rasante por cima da coluna.
O soldado à minha frente olha para trás. É o Santos. Eu encolho os ombros. Ele sorriu. Porque nos rimos nós, no meio da guerra? Deve ser por estarmos cansados de caminhar vendo as costas uns dos outros, e termos sido feitos para nos olharmos assim, cara a cara.
À frente de todos, os soldados do ancinho que vão esgravatando a picada. O da esquerda parou. Baixou-se para ver o que o ancinho detetou. Parámos todos.
O Santos aproveitou a paragem para urinar, sem sair do lugar onde estava. O soldado à frente dele rodou a cabeça para trás, sem correr o risco de mudar a posição do corpo, para se certificar de que estava fora do alcance do jato de urina.
O soldado do ancinho levantou-se e continuou a esgravatar o trilho. A fila recomeçou a andar atrás dele, cada soldado um bocadinho depois do soldado da frente, como se fossemos carruagens de um comboio a iniciar a viagem.
O céu está estranho, porque é céu de trovoada. Um trovão ao longe imitando penedos a rolar num sobrado de madeira. Alguns soldados a olharem para o céu em busca de chuva.
O Fiat regressa rasante de novo, deixando um pequeno risco no ar atrás da ponta de cada asa. Vi nitidamente o piloto olhando para nós.
Quando o som do avião desaparece, fica a ouvir-se melhor a trovoada distante, que parece afastar-se.
Avançamos a passo muito lento, e cada um de nós tenta por os pés nas pegadas deixadas pelos soldados da frente, o que obriga a estar a olhar constantemente para o chão. Eu ando a aprender a fazer isso sem olhar para o chão, o que tem duas vantagens: prestar mais atenção ao meu flanco e não ficar cego se pisar uma mina.
De um lado e do outro da picada o capim altíssimo encobre a floresta. Às vezes o Lemos, que leva a MG42, dispara uma rajada preventiva para algum lugar suspeito.
O soldado de trás chama-me e faz-me sinal para parar. Eu passo a palavra, e em breve toda a gente para de novo.
Todos olham para trás para tentar perceber o que se passa.
Estou farto disto.
Sem aviso, a imagem de um corpo nu de mulher ocupa-me a imaginação por algum tempo. A mulher caminha à minha frente de saltos altos e completamente nua. Os glúteos balançam-se e os joelhos afastam-se um pouco quando as pernas avançam, devido aos saltos altos. Tento focar esta imagem o mais tempo possível, mas a dada altura a imagem na minha imaginação começa a desvanecer-se, e acaba por desaparecer, e o que vejo agora são duas filas de soldados de costas para mim, imóveis, como se tivessem parado o filme da guerra.
O suor junta-se ao pó e começa a desenhar riscos nas nossas caras e a pintar manchas escuras onde o pano do camuflado toca no corpo.
Os turras devem detetar-nos pelo cheiro, a quilómetros de distância. Felizmente que a natureza nos dotou de um mecanismo que desliga o sentido do olfato quando estamos muito tempo sujeitos a um odor. É conhecido como “fadiga olfativa” e parece que servia para evitar que os nossos ancestrais não ficassem inibidos de detetar o cheiro dos predadores por causa do seu próprio odor. Agora serve para não desmaiarmos com o cheiro uns dos outros.
A imagem do corpo nu de uma mulher volta a atravessar-me por momentos o pensamento. Mas por pouco tempo; parece que a realidade torpe é mais importante agora, para o meu cérebro, do que a graciosa fantasia.
Não há sinais de podermos recomeçar a progressão e a imobilidade aumenta a temperatura do corpo. O sol marra. O ar sufoca. Os mosquitos divertem-se em torno dos meus olhos. A tensão faz apitar os ouvidos. A G3 aumentou de peso. A própria farda parece de chumbo. É óbvio que um ser humano normal não foi feito para isto.
Olho para trás e giro o indicador junto à cabeça e abro a mão em sinal de pedido de esclarecimento. Em resposta o capitão estica o mínimo e o polegar e encosta a mão ao rosto imitando um telefone e depois bate com o dedo no relógio. Entendo que aguardamos instruções para prosseguir.
A coluna auto que vem de Omar ao nosso encontro deve estar com problemas.
O Fiat volta a aparecer, rasante de novo.
Os soldados torcem o corpo para olhar para trás, sem mover os pés, assim que o ouvem ao longe, e destorcem-no para o seguir com o olhar até ele desaparecer onde a picada se afunila em vértice na linha do horizonte, á nossa frente.
Não entendo o que se passa. Começo a ficar em stress. Na guerra não gostamos de surpresas nem de grandes mistérios.
Agora houve-se a tosse convulsa caraterística do Alouette III. São dois. À medida que se aproximam, a tosse vê-se que é acompanhada da pieira habitual.
Houve merda! Diz o Santos.
Desta vez não sorriu.
Não aguento este silêncio e esta incerteza. Estou a meio da fila de soldados, e ir até à Berliet do capitão para saber o que se passa, constitui um perigo muito grande para mim e para os soldados por quem passar.
Está quase a escurecer. Dentro de pouco tempo não poderemos prosseguir com a coluna porque se fará tarde demais para ir e voltar para um lugar seguro, dado que o local de encontro seria o pior possível para pernoitar.
Baixo-me e esgravato a areia em torno de mim com cuidado para me certificar que será seguro sentar-me. Marco no chão o local perscrutado por mim, para saber onde posso colocar as mãos e os pés. O Santos imita-me.
Pelo canto do olho, vejo, de cima da Berliet, o capitão a fazer um enquadramento sobre mim com a zoom da sua máquina fotográfica, e eu aperfeiçoou disfarçadamente a minha pose. Mais tarde quando me der a foto vou escrever a legenda:
Que faço eu aqui?
O céu estranho foi-se tornando normal à medida que a trovoada distante se desvaneceu. O calor baixou um pouco.
O capitão faz-me sinal para regressar às Berliets e eu passo a palavra para a frente e para trás.
Regressamos agora, pisando as nossas próprias pegadas. Certifico-me que o Lemos e o soldado do ancinho trocam de posição e que ele e o outro apontador de MG42 são agora os últimos, caminhando de marcha atrás com estremo cuidado, de metralhadora apontada para o longo funil da picada.
Lá ao longe, onde a picada parece terminar no lombo de uma colina, o céu prepara as coisas para se fazer noite. Do lado de lá houve merda.
Apesar da humidade perto da saturação, tenho a boca seca. Daqui a pouco o abaixamento da temperatura provocará a condensação da humidade do ar em pequenas gotículas, a que chamamos cacimbo, e o efeito de estufa atingirá o limite. Depois, a temperatura vai descendo até tornar as nossas fardas em farrapos encharcados de água fria sobre o corpo, e pela madrugada a baixa temperatura far-nos-á bater o dente. Adormecemos no verão e acordaremos no inverno.
O Fiat faz longos volteios, como uma ave de rapina sobre uma presa ferida, e depois abala em direção a Mueda. Pouco depois regressam os Alouett III.
Foi um ataque de abelhas. Diz-me o capitão quando subo para a Berliet.
Sei bem o que um simples enxame de abelhas africanas pode fazer a uma companhia inteira, e diz-se que os turras nos atiram sacos com colmeias sobre as colunas para nos atacarem enquanto estamos no meio da confusão.
Será que nada nesta terra nos tolera?
Mas a nós, hoje, ninguém nos fez mal. Hoje, não fizemos mal a ninguém.
Fico a admirar o por do sol em busca de um sinal de reconciliação da Natureza.
Uma paleta de vermelhos, rosas e violetas dão cor a um céu pintado por mão infantil e a floresta luxuriante e o capim alto são um plágio ao traço naïf de Henri Rousseau. Preparo-me para descansar, experimentando um pouco de alívio finalmente.
Penso que daqui alguns anos, estes momentos de serenidade serão o que de melhor teremos para recordar, e não os intensos momentos de ação onde a adrenalina não deixa lugar para o pensamento.
Ponho-me a pensar que haverá algum escritor futuro, que não tendo saído da segurança dos quarteis ou do aconchego dos hospitais; nem tendo disparado uma arma sobre ninguém, nem sentido que a sua cabeça era a muche do alvo de uma kalash, falará de horrores que de facto não sofreu nem fez sofrer, só para dar autenticidade aos seus escritos, e sinto antecipadamente um desrespeito enorme por ele. Não conheço maior indignidade do que plagiar o sofrimento alheio para ter uma boa história para contar.
Preparo-me para dormir.
No meio daqueles soldados todos, o olhar do Santos cruza-se com o meu. Eu ajeito a mochila para me servir de almofada, ele ajeita o poncho de borracha como se fosse uma manta. É preciso tão pouco para dar conforto a um soldado.
Eu encolho os ombros, o Santos sorriu.

10.12.17

O Formidável Lica

(In: Aguim Em Mim - Western Ginato)

O sino da torre da capela da Nossa Senhora do Ó de Aguim bateu três vezes, e o som das horas cobriu em três ondas sucessivas o casario prolixo, até se desvanecer em silêncio nos pinhais e olivais derredor. Bateu três vezes e calou-se. Dentro em breve repetirá as três badaladas, entretanto, tanta coisa se passará, mas o sino ignorará tudo, porque para ele serão ainda três horas da madrugada.
Um vulto na noite. Um vulto mal distinto na noite lúgubre que deixava a palidez da lua iluminar a rua da Portela, ou escurecer, porque ainda não nasceu quem saiba ao certo quando é pouca a luz ou muita a escuridão, ou vice-versa.
O vulto é de um homem que espera alguma coisa ou alguém, com ar ameaçador, ou assustado; que a coragem e o medo distinguem-se tão bem uma do outro como vimos que acontece com a luz e a escuridão.
A pequenos espaços de tempo, vão aparecendo outros vultos, estes sobressaindo da escuridão como fantasmas, devido ao manto branco com que se cobrem, que esvoaçaria ao vento, se houvesse vento, mas naquela noite iluminada, ou escurecida, pela palidez da lua não bulia a menor aragem para que desse modo a cena de um crime que estava prestes a acontecer tivesse a maior carga dramática possível.
Um a um, os embuçados vão saindo dos becos e ruelas adjacentes, empunhando varapaus e cercando o vulto no meio da rua da Portela. Só depois aparece uma figura formidável, de rosto descoberto, apenas envergando um barino e com uma enorme moca na mão, de onde nascia um verdadeiro espinheiro de pregos. Era o temível e tão admirado como odiado Lica.
Esta é a história fantástica e lendária do rei dos embuçados de Aguim. Passou de ancião para jovem e depois esperou que o jovem se tornasse ancião e passou para outro jovem, de geração em geração até chegar a minha vez de a contar aos jovens de hoje.
E embora não bulisse a menor aragem, quem conta esta história jura que a aba do seu varino ondulava ao vento.
De tudo quanto se sabe sobre ele, poucos são os que acreditam em metade do que se conta, como sempre acontece com as figuras que superam os seus pares. A imaginação dos espíritos mais criativos fantasia o que não se sabe de fonte segura e a inveja dos medíocres e dos covardes tenta diminuir a importância dos feitos que temem ser verdadeiros porque os menorizam a eles.
Diz-se que, quando uma junta de bois não conseguiu tirar de um atoleiro o carro que puxava, o Lica desatascou o carro; empurrando o carro, a carrada e os bois. Diz-se que um dia fez uma aposta com um lavrador abastado, prometendo que levaria às costas para sua casa uma pipa cheia de vinho se o lavrador lha oferecesse, e o lavrador incrédulo aceitou o desafio e perdeu assim uma pipa do seu melhor vinho.
Dizem-se do Lica mil e uma coisas em que não acreditamos, porque a maior parte de nós são pessoas medíocres que usam a incredulidade para esconder a sua mediocridade, a sua cobardia, a sua falta de aceitação das coisas, pessoas e fenómenos que transcendem a insignificância das suas vidas desinteressantes.
Era essa figura temível e fantástica que saiu da rua do Chães de S. Miguel e caminhou a passadas calmas mas seguras até ao meio da rua da Portela e que depois se virou para olhar de frente o vulto que há pouco poderia parecer assustador mas que repentinamente se tornou na silhueta insignificante de um homenzinho assustado.
O Lica era um homem olhando outro homem, mas o Lica era maior do que o homem que era, porque, na verdade todos os homens têm um valor diferente daquilo que são e que aparentam, todos os homens ganham valor, ou perdem, pela história que vão construindo de si e que os acompanha pela vida fora, e até para além da vida, como se vê por este relato.
De um lado, um vulto de homem mediano, que a palidez da lua não deixava reconhecer, que tremia de medo, rodeado por quatro embuçados que lhe impediriam a fuga. Do outro lado o colosso de moca ornada de pregos, de cujo rosto se via apenas o branco dos olhos, mas que qualquer habitante de Aguim reconheceria como sendo o lendário Lica.
A coragem do homem acossado, afinal, seria digna da maior admiração, não fora o peso no bolso que lhe fazia descair um pouco o casaco para a direita, o peso do revólver de cão recuado que sobre a coxa lhe dava a garantia de aqui, hoje, nesta noite lúgubre, lhe saldar a dívida pela humilhação de que fora vítima ao ter-lhe sido furtada a pureza da mulher prometida, decerto à força, por aquele brutamontes que agora enfrentava.
Os quatro embuçados que o rodeavam, imobilizados pela consternação de um massacre já inevitável, encostavam-se às paredes das casas que ladeavam a cena, com remorsos antecipados por participarem no confronto desigual entre aquele algoz e tão débil criatura.
O Lica deu o primeiro passo devagar, deu o segundo passo mais rapidamente e prestes a lançar-se sobre a sua presa, ergueu a moca cheia de pregos.
O sino da torre da capela da Nossa Senhora do Ó de Aguim, que dá as horas sempre em duplicado, bateu de novo três vezes, fazendo vibrar o seu bronze vigoroso e lançando por três vezes de novo as ondas sonoras sobre o casario prolixo da velha vila, até que o som e o eco do som se venha a perder, agora definitivamente nos pinhais e olivais derredor.
Que não se estranhe que tanta coisa se tenha passado entre as duas vezes que o sino deu as três horas, como se quisesse apagar tudo o que se passou entrementes, tal qual acontece tanta vez com a indiferença dos homens a respeito das coisas que não entendem ou não são capazes de valorizar. Não se estranhe, porque, contrariamente, a nossa memória das coisas tende a dilatar os acontecimentos dramáticos que vivemos, e a memória de muitas pessoas, como as que transmitiram estes acontecimentos no decurso de mais de um século, tende a dilatá-los proporcionalmente.
Na verdade, tudo o que aconteceu, aconteceu entre as duas vezes que o sino deu as horas, e é de estranhar que tanta coisa se saiba.
Aquele vulto, depois de consumar a sua vingança, há de fugir para o Brasil, mas antes esconder-se-á das autoridades num tonel vazio de postigo trancado, aonde a sua irmã fará chegar pelo batoque a comida e a bebida para ele sobreviver durante um mês. O que ele fez ao que o corpo não aproveitou e sempre tem de expelir, não sabemos; são pormenores que agora também não deixaremos que venham estragar a nossa história.
O sino deu a terceira badalada, o Lica já se lança sobre a vítima desgraçada, a última onda sonora ainda não se perdeu pelos pinhais e olivais derredor e já outro som desassossega o ar desta noite lúgubre, em ondas mais rápidas, por se tratar do inconfundível estampido de um tiro que atravessou o coração de touro do embuçado mais temível de sempre. Mas isso não o fez parar. O Lica morreu correndo atrás do seu miserável matador por mais de dez ou vinte metros, conforme a credulidade de cada narrador.
Esta história acabou, já há muito que não vive ninguém que tenha conhecido os seus personagens, já são muito poucos os que ouviram falar dela. De ancião para jovem, de geração em geração esta história chegou até aqui, e entretanto, este povo, a quem alguém atribuiu brandos costumes, viu assassinar um rei, o seu sucessor, um presidente, um primeiro-ministro e o seu ministro da defesa, além disso, manteve uma guerra em três frentes do outro lado do mundo durante mais de uma década e por fim, não contente com estas reviravoltas que deu à História, fez uma revolução para começar tudo de novo. Agora luta arduamente para sair de uma crise económica e civilizacional em que nos colocaram os medíocres e covardes. Porém, este povo pode não descender de homens como o Lica, mas descende seguramente de homens capazes de dar reviravoltas à História.
Cuidado ó medíocres e covardes!

18.7.16

O último olhar do Dentinho

Pouco mais do que o seu olhar regressou com ele de África. Nem um gesto completo. O olhar, o movimento do rosto, um único dedo que obedecia à sua vontade e dentro do pesado escafandro do corpo que o aprisionava, um teimoso sopro de vida que aguentou 45 anos, e que ontem, cansado de lutar, se apeou dessa viagem.
Quanto de um homem se pode tirar para que, ainda assim, o sofrimento continue a ser possível? E quanto precisamos para valer a pena viver? O Dentinho vivia nessa fronteira entre o sofrimento inútil e a vida possível, mas acredito que se lhe tivessem feito essas perguntas, antes do seu ténue sopro de vida se ter esgotado, ele não teria uma resposta categórica para dar. Responderia com o seu último olhar, antes de partir; entre a revolta e a resignação, entre a coragem e a desilusão, entre uma ténue mas persistente vontade de continuar e a avassaladora impotência – esse seu olhar vindo desse centro geométrico onde se gera a dúvida, que é a habitual reação dos sábios às perguntas retóricas dos tolos. Esse olhar sobrevivente, que trouxe de África, com que dizia o que as palavras não dizem. E quando regressávamos a casa depois de o visitarmos, parecia que nos tinha dado uma lição sobre algo tão difícil de entender que nem sabíamos bem o que era, mas que nos tinha modificado para melhor, ou fosse lá o que fosse, que sentíamos no peito, como, às vezes, em dias de chuva, quando um pouco de sol rompe as nuvens e nos faz sentir um ténue afago de luz. Era o olhar do Dentinho. Um olhar de gratidão, de camaradagem, tão genuíno que o afago de luz que sentíamos era a nossa gratidão por nos sentirmos importantes na sua vida. Ontem esse olhar foi-lhe tirado também.

45 anos. O corpo inerte, inútil, insensível sobre a cama, a não ser por uma dor permanente que o atormentava. Um cérebro que guardava a cartografia íntegra do corpo que já morrera há muito e que lho ressuscitava em forma de dor. Esse maravilhoso cérebro humano que nos recria o mundo numa representação virtual cheia de beleza, dando-nos a ilusão de que é o mundo real que conhecemos. O cérebro teimoso a sobreviver ao próprio corpo e a dizer-lhe perversamente que o corpo ainda estava lá, não para as coisas boas que um corpo nos pode dar mas apenas para a dor. A dor fantasma dos amputados, em que o cérebro nem precisa do corpo para gerar dor, a fazer crer que a dor é a derradeira consciência que temos de nós.
Choraram na sua partida, mais porque as partidas fazem sempre chorar, do que por esse desfecho ter constituído uma enorme tragédia para alguém. De que nos apetecia chorar a todos? Do pesadelo que foi a sua vida ou da morte que o libertou? Uma jovem ao meu lado perguntava não sei a quem, talvez a Deus, o que teria feito ele para merecer a vida que viveu, depois deu um suspiro, que deve ter sido a melhor resposta que conseguiu encontrar.
Perguntar ao Deus omnipotente uma coisa destas é quase uma acusação. Se um cidadão pudesse e não tivesse salvo o Dentinho, poderia ter sido acusado de omissão de auxílio à vítima. Se um pai negligenciasse os seus deveres que estivessem assim ao seu alcance para acudir a um filho em sofrimento atroz, seria decerto acusado de violência doméstica e a Segurança Social retirar-lhe-ia o poder paternal.
É impossível resistir a esta filosofia barata quando nos sentimos impotentes perante estes mistérios existenciais sem solução, mas inventar um deus psicopata para os explicar é ainda o mais estúpido que podemos fazer.
O seu funeral atrapalhava o trânsito na rua estreita do Casal Novo de Meãs do Campo, o último incómodo que o Dentinho provocou a este mundo, ele que, condenado à vida confinada a um corpo morto, teve o amor de uma mulher prometido para o resto da sua vida vazia, e recusou. Pode oferecer-se amor recusando-o, ensinou-nos assim o Dentinho, ao libertar a sua namorada da prisão de que ninguém o libertou a ele.
Hoje, descansou finalmente o Dentinho, se o sono que dele se apossou não for, ele também, um sono povoado de pesadelos. Se a dor persiste num corpo insensível, se persiste mesmo para além do corpo, será que sobrevive algum tempo à própria morte?
Que um Deus piedoso exista, ao menos só por hoje, para ti, camarada; e que seja um deus à altura da tua lição de amor, e que te liberte definitivamente da vida de dor em que te manteve preso, ou então que se cumpra a Natureza e que regresses ao lugar de onde vieste, a esse lugar nenhum de onde viemos todos, e para onde inevitavelmente regressaremos todos um dia, e que a vida não passe de um dramático pestanejar do infinito onde, por um maravilhoso acaso se gerou a consciência humana, esta consciência que nos faz delirar de prazer e horrorizar de dor.
Nós, os teus pares, cobrimos a cabeceira do teu caixão com a bandeira do teu país, para termos uma última ilusão da sua gratidão por ti. Quando um soldado morre não deviam chorar apenas os que dele terão saudades; alguém devia, em nome do seu país, prestar-lhe homenagem pela dádiva de sangue que lhe exigiram. Se se medisse a importância de um soldado pelo seu sofrimento, terias honras de general, porque não conhecemos ninguém a quem a dor tivesse condecorado com tão grande distinção.
Mas, não fosse a bandeira verde-rubra que te levámos e ninguém se lembraria que um dia acreditaste que valia a pena lutar por este país.
Lembrámo-lo nós que combatemos contigo. Na guerra, e depois da guerra pela dignidade possível; e levámos-te também a nossa bandeira, que criámos para esse combate do pós-guerra, para cobrir-te modestamente os pés e, claro, a faixa rubra do teu clube, que ao menos na despedida é preciso respeitar as paixões mais irracionais de um homem.
À noite, reparei na lua enorme e fui olhá-la do terraço. Ali, sobre o Tovim, onde as ondas eletromagnéticas do Sol, a que chamamos luz, traduzidas pelo meu cérebro, me faziam ver, não o enorme calhau redondo que regula as marés e o ciclo menstrual das fêmeas dos mamíferos, mas sim a face iluminada da deusa da noite aprisionada pelo abraço gravitacional da Terra, que inspira os poetas e maravilha os tolos como eu.

É difícil conceber tudo isto sem um motivo transcendente, é difícil aceitar este mundo – que hoje o nosso irmão de armas abandonou, vítima de uma guerra já distante, por nada nem ninguém lhe merecer o seu sofrimento – é difícil aceitar este mundo sem propósito nem poesia nenhuma, não fora o maravilhoso cérebro humano que no-lo recria pleno de beleza para que a vida não seja apenas um erro inútil do cosmos.

Para deficientes visuais, ouça a versão áudio em ADFA-Portugal.com, na rubrica Episódios, aqui.

23.6.16

Enquanto o comboio não parte

Na Estação Velha de Coimbra, a esta hora, há sempre meia dúzia de pessoas a dormirem nos bancos. Passageiros com a viagem interrompida por algum motivo. Como se a noite os tivesse encontrado a meio da sua rota por mero acaso e eles sentissem que o relógio do corpo começara a ficar sem corda e que os membros, como ponteiros flácidos, começassem a perder toda a tenacidade, e a consciência se volatilizasse num prazer fluído pelo corpo todo.
O prazer de ir na corrente, de deixar que a gravidade nos puxe para o fundo até sermos apenas uma sombra de nós mesmos, apenas uma sombra difusa. Lá em cima, acima da linha de água, alguém às vezes chamando por nós, e a tentação de ir ao fundo, a vertigem da queda no abismo, a preguiça de lutar pela consciência… ou o medo.
Acordar para quê? A voz a chamar por nós, e uma parte de nós a querer responder e a outra a querer deixar-se ir.
A realidade pode ser intolerável. Nunca sabemos, ao acordar, onde estamos a acordar. Será que ao nosso lado vamos encontrar o rosto que chama por nós de sorriso cúmplice, por entender muito bem o motivo da nossa preguiça matinal, ou será que ao ouvirmos a voz que chama por nós, não vamos sentir coragem nenhuma de abrir os olhos porque o pesadelo que tivemos pode ser a realidade que nos espera? – Acorda! Acorda! Dão-me palmadas no rosto. Soldados a gritar à minha volta e o pó ainda quente da explosão da mina a descer devagar sobre mim.
Ou será que vamos acordar numa cama imunda de hospital? O cheiro nauseante da creolina e do éter, e a ilusão de que afinal o corpo está todo ali, porque todo ele dói. A dor em cada dedo do pé que vi desaparecer na picada ressuscitado inexplicavelmente. A reconfortante, a maravilhosa, a miraculosa dor! Excruciante, como se uma turquês estivesse a esmagar cada osso, cada tendão, cada nervo, mas ao mesmo tempo tão redentora, a devolver-me o pé perdido na explosão da mina. Será? Ou mais um pouquinho de lucidez e ao fundo, na cama, apenas um alto sob o lençol? E o cabo enfermeiro a explicar: "São dores fantasmas, furriel, pecebe?" Enquanto na cama ao meu lado o Lemos delira sob o efeito da morfina: "Sou um pirata da perna de pau, olho de vidro e cara de mau".
Perante o meu olhar atónito o enfermeiro tenta uma comparação: “Se cortarmos esse fio e mudarmos o interruptor para o corredor, lá dentro a luz acende à mesma na cama 6, pecebe?”
Acordar apenas para a dor. A dor inútil. A dor sem corpo. A dor fora do corpo. A dor no local onde deveria estar a coisa que dói, mas que não está lá. Só lá está a dor. Uma dor em cada dedo, onde não há dedo nenhum. A dor ali, no ar, a dois palmos do coto. A dor por cima do lençol sem nenhum relevo sobre a cama, a dor mesmo no local onde se lê "Hospital Militar".
O comboio está aqui parado há imenso tempo, e pelos altifalantes somos avisados de que se encontra uma composição avariada a obstruir a linha. Imagino-me a caminhar na gare. Recordo as inúmeras vezes que caminhei na gare de uma estação aguardando por um comboio que tardava, sem pressa de partir, sem urgência para chegar a lado algum, apenas esperando que o comboio viesse, parasse e me levasse, e, enquanto isso, caminhando maquinalmente para um lado e para o outro só para não estar parado, sem dar conta que era feliz por não me preocupar com o tempo que perdia, porque, afinal, a solidão não é tempo perdido, dado que é tempo que passamos a sós com a pessoa que conhecemos melhor. Às vezes puxava de mais um cigarro para fazer um parágrafo nos meus pensamentos. Para abrir um parêntesis, para mudar de página.
Um vulto composto por uma enorme mochila com uma pessoa por baixo passa à frente da janela caminhando na gare. Como estou de costas para a frente do comboio tenho que me virar para trás para seguir o vulto e vê-lo a transformar-se numa jovem de cabelos cor de palha, à medida que se vai desfazendo de tudo quanto trazia às costas e pendurado à cinta. Senta-se no chão, na posição de Buda, e desdobra um mapa que fica a estudar calmamente.
Poucas pessoas entenderão como pode parecer absurda a paz no rosto de uma jovem sentada no chão, debruçada sobre um mapa. Temo pela sua segurança, assim despreocupada sem arma nem proteção, enquanto uma saudade incompreensível se apodera de mim como se aquele ato me tivesse sido subtraído, como se fosse um papel que me coubesse desempenhar a mim e que dele tivesse sido excluído. Acho que poucas pessoas entenderão que podemos sentir falta de desdobrar um mapa sobre a G3 a servir de mesa, pousada nas pernas cruzadas, e puxar da bússola azimutal, com o único propósito de descobrirmos onde estamos, enquanto árvores centenárias construíam a nave verdejante de uma catedral viva por cima de nós.
Quase me levanto para caminhar ao longo da carruagem, só para não estar parado e fazer um parágrafo nos meus pensamentos sem a ajuda do cigarro, enquanto o comboio não parte, mas o pé que me dói não está lá para me apoiar, só a dor a desenhar a sua forma precisa; agora apenas um formigueiro como se apenas tivesse estado dormente.
De vez em quando olho pela janela e, de cada vez que olho, vejo a jovem cada vez mais recostada na mochila, prestes a adormecer.

Na Estação Velha a esta hora há sempre meia dúzia de pessoas a dormirem nos bancos. Pessoas, quero crer, que apenas adormeceram de cansaço e que vão acordar serenamente para continuarem as suas vidas. Um intervalo apenas para continuarem viagem. Pessoas que despertarão do sono sem medo de que a voz que as chama, acima da linha de água da inconsciência, as faça acordar para um pesadelo.
Pessoas para quem essa voz apenas despertará nelas, dos abismos do subconsciente, desejo vivamente, a doce memória da voz maternal a sobrepor-se aos ruídos do mundo ainda desconhecido, quando dormiam o sono intra-uterino e primordial.

Muitas horas depois de ter parado aqui, o comboio dá um grande estremeção, um enorme despertar metálico que faz estalar toda a composição, depois começa lentamente a mover-se, e reparo que o dia já nasceu e sinto que me vou afastando para sempre do que me ligava às histórias das pessoas que ficaram na gare da Estação de Coimbra. Cada vez que um comboio parte, ficam muitas histórias por contar. Fica também algo da nossa vida para trás. Uma parte de mim também não embarcou, ficou sentada na gare da Estação de Coimbra a consultar um mapa, uma última evocação de um tempo passado, dela já nada se liga a mim, agora que desapareceu. Outra parte de mim ficou nesse tempo, em África, dela trago apenas a sua forma nítida desenhada a dor. Nunca levamos tudo quando partimos de viagem.
O comboio ganha velocidade e eu vou-me afastando irreversivelmente da vida que vivi, e aproximo-me de quê, eu que viajo de costas para o destino?



Ponto de não retorno

(In Cacimbados)

O Primeiro Maia é um gajo normal. Tirando o facto de já ter morto mais gente nesta guerra do que eu alguma vez consiga imaginar. Está sentado à minha frente no bar do aeródromo de Mueda. Ele vai falando e eu vou-me convencendo que o que nos separa é muito mais que esta mesa tosca de madeira. Hei de ouvir falar muito dele ainda, e dirão sempre: “Um gajo normal”.
Fala-me com o tom autoindulgente  e paternalista, típico de quem está mais inclinado a justificar os seus pecados do que a confessá-los. Mas nunca há palavras suficientes para nos redimirem dos nossos pecados, nunca há palavras que nos ajudem a mentir a nós próprios.
– Todos temos os nossos limites, Bastos. Limites, percebes?
Perante os meus olhos tontos do whisky ele insiste:
– Não sabes qual o teu limite para a bebida, por exemplo? É como quando discutimos com alguém. A partir de um certo ponto começamos a perder as estribeiras. E depois como é? Acaba tudo à porrada. É, ou não é?
Olhava de vez em quando pela janela que dava para a pista onde os helicópteros alinhados pareciam cansados, com as longas hélices paradas que se arqueavam com o próprio peso, e mais ao longe os T6 a fazerem lembrar moscardos enormes. Ele olhava pela janela à procura de alguma ideia que mudasse o ar mortiço do meu olhar e desse mostras de entendê-lo.
– Tu, por exemplo, não quiseste ultrapassar o teu limite. Eu sei que não entregaste a carta ao Segundo Fanhais.
Preferiste mentir ao teu pai e vieste bater aqui com os cornos.
Era só uma carta para um pide. O teu pai ultrapassou o limite dele por ti. Sabes o que teve que engolir? Sabes as humilhações que passou? Os problemas de consciência? E tu? Não foste capaz, não é? É assim com tudo na vida.
Quantos gajos mataste aqui? Em quantos vais? Agora era eu a olhar pela janela envergonhado por ainda não ter matado ninguém. – Estou aqui só há uma semana meu Primeiro.
E ele a olhar de novo pela janela como se falasse para o seu helicóptero pousado na pista.
– Sabes o que importa numa guerra? Não é os turras que matamos. As guerras são para os soldados se matarem uns aos outros. O que importa é os que não são soldados. O que importa é os que morrem sem saberem porquê. Sabes qual é o teu número? O teu limite? Descobre quanto antes e não ultrapasses esse limite. É como quando bebes aquele golo de whisky a mais, ultrapassas o teu limite e já não vais ser capaz de parar e já nem vale a pena parar, porque já não vais a tempo de evitar a bebedeira. Sabes nadar, Bastos? Até onde podes ir pelo mar dentro? Olhas para trás e vês a areia da praia ao longe. Será que as tuas forças ainda darão para mais umas braçadas e para voltares até terra firme?
– Ó Primeiro Maia, sempre é verdade o que dizem? Que você faz isso com o helicóptero? Que chega à pista e calcula o combustível que traz, para ir mais longe da próxima vez ?
– Sabes? Diz ele sem responder à minha pergunta. – Lá de cima não dá para ver quem lerpa, se são turras ou não . Lerpa tudo.
Levanta-se de um salto. – Ó nosso Cabo, ponha a despesa aqui do nosso Furriel na minha conta. Não passes o teu limite, meu filho!
Dizem que o Primeiro Maia é um gajo normal. Saiu do bar sem olhar para trás, talvez irritado com a minha pergunta, talvez porque já tenha ultrapassado há muito o seu limite, a partir do qual já não há retorno possível e a partir do qual deixamos de ser gajos normais. Será mesmo que faz isso com o helicóptero, como dizem?
Ao fundo do bar um grupo em torno de uma mesa tenta acertar com a música de uma canção do Zeca Afonso e repetem sem cessar os mesmos versos que parecem cada vez mais desafinados: “Entrei numa gruta Matei um tritão Mas tive o diabo na mão Mas tive o diabo na mão”.
E depois, já na pista, o Primeiro Maia a dirigir-se para o seu heli-canhão. A passar a mão sobre a fuselagem como os cavaleiros fazem no lombo dos cavalos antes de montarem.
A entrar no habitáculo e depois a assomar de novo à janela, olhando em redor.
O que mais ouvi dizer sobre o Primeiro Maia, a par da história de ele andar a ver até onde dava o combustível do helicóptero, era que se tratava de um gajo normal. Alguém como nós. Como se isso tornasse a história agourenta.
Ele entrou no habitáculo e depois voltou a assomar à janela. Tenho a certeza que fez isso porque agora parece-me um gesto de despedida. O Primeiro Maia. Um gajo como nós. A não ser por ter ultrapassado o seu limite há muito e passar a vida a tentar justificar o quanto passou a gostar do seu papel de predador, como se a morte fosse um vício. E ao fundo da sala a música desafinada: “Mas tive o diabo na mão Mas tive o diabo na mão”.
“Lá de cima não dá para ver quem lerpa, se são turras ou não. Lerpa tudo.” Um gajo como nós. Um gajo normal. Só que ficou viciado na morte. “Não passes o teu limite, meu filho!” E ele a assomar à janela e a olhar em redor, como que a despedir-se.
É difícil conceber o Primeiro Maia como mais uma vítima desta guerra. Ele, que embora não carregue no gatilho e seja apenas o piloto do helicóptero que leva a morte tanto a turras como a inocentes, vive indeciso entre o orgulho e o sentimento de culpa; e para desvalorizar este conflito, desvaloriza a própria vida, fingindo que anda a ver até onde pode ir sem reabastecer o depósito.
Quando encontraram o seu heli-canhão desfeito contra o enorme penhasco, a um quilómetro do aeródromo de Mueda, perceberam logo porque não se tinha incendiado com o combustível.


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Zero absoluto

Crescer é perder o direito à infância
Órfãos da inocência
e condenados
à desarrumação do Cosmos
n
ão aceitamos a liberdade
de tudo acontecer sem raz
ão
O verde mais tenro do prado
a sombra mais fresca do bosque
o trote mais livre do potro mais livre
n
ão têm mais propósito de servir
a humana frui
ção
do que a p
ústula mais fétida
sobre virginal pureza
Felizes dos que sublimam
a aleatoriedade do mundo
e fazem de deus
o bode expiat
ório
da impot
ência humana.

Na lareira da minha avó
o tempo ardia lento
O olhar dela fitando os folhos de seda
que se desfraldavam das cavacas
De longe em longe
um suspiro acordava a mão da tenaz
que aconchegava os tições
a outra dormindo no regaço
Depois
outro suspiro sossegava a saudade
inquieta no peito
E os pensamentos flutuavam
ao compasso das sombras
na parede da cozinha
até se misturarem sem densidade
dentro do meu sonho
Que eu
ao colo dela
mesmo a dormir era feliz.

O teu amor nasceu
quando em ti
morreu a vergonha
dos nossos delitos
O amor torna decoroso
o que o simples desejo
mantém obsceno
Quando me tocavas
com o olhar de quem rouba um fruto
violavas o pudor
que deus inventou
para valorizar o pecado
Agora
com a conveniência do amor
colhes o fruto
sem o frémito da conquista
nada em ti se agita ou sobressalta
somos duas almas gémeas
apenas brincando com os corpos
O amor tornou o prazer incestuoso.

Se não fui refratário
nem desertor
não foi por falta de medo
foi por falta de luz
De coração na boca
e arma na mão
apenas agi como aqueles
a quem deram uma causa justa
e os inimigos certos
Combati
e enquanto combati
de mim dei quase tudo
Porém
o que dei
ninguém mo mereceu
Mas a minha ínfima glória é esta
a meio da carnificina
aprendi que a morte
pode ser a última coisa digna
a que temos direito.

Um homem com uma arma
não é um soldado
Um soldado é uma arma
levando um homem pela mão
que o que define um conjunto
é o elemento mais significante
Às vezes o homem põe-se a pensar
e a arma vai perdendo ascendência
e o soldado desaparece
Fica então um homem atónito
de arma na mão.

Pobres daqueles que chegam ao destino
ou a ambição era curta ou o sonho já morreu.

A avenida Bissaya Barreto
passa com uma fluidez de rio
dividindo o mundo em dois
Em cada margem
uma diferente estação do ano
De um lado
o verão de vestidos leves
e óculos escuros
Olhares de sol poente
no desnudamento das pernas
onde às vezes
o prolapso provocante de um joelho
sob uma mesa da esplanada
desperta o Tempo distraído
entre galões e tostas mistas
Do outro lado
o inverno dos rostos famintos de luz
com um restinho teimoso de esperança
embaçada pelas vidraças foscas
da enfermaria do IPO
onde a areia do Tempo
escorre entre dedos trémulos
Os olhos prestes a perderem-se no Caos
mas uma energia residual
dilata os minutos breves
no aperto do peito
A entropia a aproximar-se
perigosamente
do zero absoluto.

Na sala de espera
algumas pessoas
ainda pertencem ao mundo dos sãos
outros gozam de um pequeno intervalo
entre as duas partes do drama
No mostrador do atendimento
ao contrário da vida
podemos avaliar
quanto falta para a verdade.

A fita de Möbius
e um hospital
têm apenas um lado
Basta a vida dar meia volta
e os médicos e enfermeiros
adormecem de bata
e acordam de pijama
na ininterrupta fiada de olhos
adorando o teto.

O capelão
vem pela tarde
quando as almas estão mais apuradas
e ministra o placebo divino
Depois vem o enfermeiro
com os princípios ativos
não vá o diabo tece-las.

Nós os soldados
aprendemos a ter medo
aprendemos a viver
com uma curta esperança de vida
Quem não sabe ter medo
vira as costas ao perigo
para não ver a Morte
Eu hei de morrer com medo
mas ao morrer
quero olhá-La nos olhos
quero rir-Lhe nos olhos
e odiá-La como quem ama.

A doutora Gabriela
faz sofrer o cancro desalmadamente.

A esperança
não é a última coisa a morrer
Muito depois da esperança
ainda resta a coragem
e depois da coragem o desalento
E o desalento não morre
vai desvanecendo até à insanidade
E quando a vida no-lo deu a conhecer
e porque é insano e imponderável
o amor sobreviverá ao corpo
um átimo após o último sopro
como chama que arde ao vento
enquanto o pavio já apagado arrefece.

Quando a visita chega ao fim
fecham as portas
e tu cá dentro
atado ao sofrimento
Uma borboleta no peito
preparada para a viagem
e a metamorfose inversa
do respeito cruel à vida
condena-a à clausura do casulo
Ninguém te liberta
desse embalsamento de dor
ninguém te ajuda a saltar
só porque já não tens asas
e não podes voar
Mas se tu queres apenas regressar
ao Infinito de onde te foram buscar
porque é que a misericórdia humana
não te salva da vida
Porquê
se o inferno é aqui.

Ninfa desflorada a bisturi
ventre prenhe de morte
seios canibalizados
escalpo sob o lenço de seda
que bonita que és
que se to quisesse dizer
só cantando
porque as palavras sozinhas
não sabem dançar
como a luz nos teus olhos
que guarda ainda
a beleza rasurada do corpo
Ver-te passar
no corredor da enfermaria
como uma oferenda
imolada à ceva dos deuses
faz do meu ateísmo uma religião.

Se deus gostasse de mulheres
arranjava maneira de existir.

O riso
é a vingança dos homens
por terem nascido mortais
e com consciência disso
Nenhuma besta se ri
e Deus é sisudo
só o homem sabe brincar
com a estupidez da finitude.

Sempre falámos muito
e nunca nos amámos tanto
como com as palavras
Às vezes calávamo-nos
Eram pausas na música
para saborearmos juntos
a ressonância dos afetos
Que vai ser de mim
sem ti ao meu lado
para dialogar os silêncios.

Camarada que partiste
sinto que está na hora de sair para a cidade
está na hora de dizer banalidades
está na hora de prosseguir
como fazem os sobreviventes depois dos combates
Não deixar que os que tombaram
comprometam o objetivo das suas vidas
o cobarde objetivo de permanecerem vivos
com a desculpa de que mais batalhas os aguardam
Na verdade
camarada
só parei um pouco para descansar
e tu seguiste
porque os melhores vão sempre à frente
Os sobreviventes são os que ficam para trás
condenados a viver um pouco mais
para carregar um pouco mais
a consciência do absurdo
Ter chegado do nada
partir para o nada
e entretanto
ter a ilusão da existência e do eterno.

O ódio é precioso
como precioso é o amor
Um e outro devem ser usados
com parcimónia
Quase nunca amei
e estou virgem de ódio
Mas agora
ao sentir a tua esganação de crustáceo
esgravatando na própria matriz do amor
nasce em mim
a mineral
a metálica
a serena fúria de te matar.

Coisa estúpida
erro oportunista
bug do código base
autofagia celular
fealdade biológica
loucura insurgente do ADN
perfídia impenitente da Natureza
incompetência divina
não importa o quanto resistas
ao meu amor consciente
o teu ódio bruto não vencerá
e se não for antes
será comigo que hás de morrer

Rosa negra
flor carniceira
festa de cólera no luto do corpo
não importa que da vida te alimentes
a tua vesânia de sorver
a humana paixão
está condenada
porque o meu amor sobrevivo
em quem quer que o guarde
há de cantar vitória
que tu
coisa estúpida
se não for antes
será comigo que hás de morrer.


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A grande filarmónica

O pé descalço não lhe tirava dignidade nenhuma ao porte altivo de chefe de orquestra. De vez em quando olhava para trás para ver se nós o seguíamos alinhados, e corrigia os tresmalhados com o olhar reprovador, sem nunca deixar de marcar o compasso. Quando chegava, a banda que o seguia era invisível e todos os sons eram mais afinados. Aparecia no largo da Capela com um dolcissimo, quase em bicos de pés, as mãos delicadas como asas de inseto, mas já entrava na rua da Portela com ar altivo e passo marcial, num andante com brio, e mais ou menos a meio do percurso, usualmente ganhava a intensidade dramática de um allegro maestoso, que culminava invariavelmente num grande finale: ratatá, ra-ta-tá, ra-ta-tá, txim pom!
Nesta altura, fazia um pequeno silêncio enquanto desentorpecia os dedos tamborilando o ar de braços abertos.
Quando se preparava para iniciar um novo andamento, já era seguido por um considerável bando de putos empunhando saxofones de troço de couve, trompetes de flor de jarro e arcos de violino de empa de vinha, aguardando que a sua batuta de vareta de chapéu-de-chuva batesse três vezes na estante da partitura imaginária.
A fanfarra ia crescendo em número, à medida que percorria a rua da Portela, e ao chegar ao largo do Sobreirinho era já uma grande orquestra que se agrupava em cima do corpo cilíndrico do poço da bomba de água transformado em coreto.
As pessoas passavam sem espanto, habituadas àqueles arraiais, concedendo, quando muito, um breve sorriso ou um comentário de circunstância, porque, por assim dizer, o Armando da Antes era já uma vedeta muito popular.
Quando o Armando da Antes decidia continuar o seu desfile, nós seguíamo-lo de novo, parando a uma ou outra porta para ele fazer o seu peditório de alguma côdea de boroa ou rabo de peixe frito, que guardava numa sacola esfiampada a tiracolo, ou alguma moedinha de tostão que ia juntando no único bolso que não estaria roto, para poder pagar o copito de zurrapa que lhe aviariam na loja do Sr. Boanerges, antes de ele abalar em direção à Antes. E partia sozinho, devido à deserção dos músicos, cansados com uma performance de uma tarde inteira pelas ruas tortuosas de Aguim, mas sobretudo porque não conseguíamos manter a fantasia por tanto tempo como ele. E agora, afinado consigo mesmo, conduzindo a sua orquestra imaginária, ouvíamo-lo desaparecendo num sfumato lento pela ladeira do Barreiro abaixo.
Quem se lembra do Armando da Antes?
Sempre imaginei que o Armando da Antes era feliz comparando a exuberância da sua figura com o ar de néscia bonomia do Abílio, um ar de tímido contentamento de menino pobre que crescera demasiado. Ele alimentava, apesar disso, uma fantasia aparentemente mais compensadora. Ele fantasiava um namoro promíscuo com todas as mulheres de Aguim. Ao Abílio não lhe bastava a côdea e o rabo de peixe, - E a pinguita e a pinguita? No final da esmola e depois de atualizar as notícias e os mexericos com que pagava o que lhe davam, perguntava sempre à dona-de-casa: - Quando é? Quando é? E elas numa ternura tolerante respondiam sempre: - É quando tu quiseres Abílio. E ele: - Quinta-feira, quinta-feira!
O Abílio tinha um encontro marcado com todas as mulheres de Aguim para quinta-feira. Uma quinta-feira imaginária e inatingível, o que, pelo menos, lhe garantia uma fantasia interminável.
Na rua, caminhava meio trôpego gritando de vez em quando: - Inda no bieram! Nunca soubemos quem tardava ao encontro, quem sabe, talvez fossem as noivas da sua fantasia.
Às vezes ganhava uma roupa nova, que ele transformava imediatamente em roupa de mendigo, mal a colocava em cima. - Cais das calças a baixo! Cais das calças a baixo! Só as crianças o incomodavam. E ele a atirar-lhes pedras, porque era criança também; só que crescera demais. Talvez as crianças vissem nele o perigo de nunca se deixar de ser criança.
- Inda no bieram! Dizia ele, nunca se soube porquê. Um dia eles bieram mesmo! Eles vieram e levaram o Abílio para onde não houvesse necessidade de mendigar nos últimos anos de vida, para onde não houvesse crianças com medo de ficarem crianças para sempre.
Ouvi dizer que não transformava o pijama em roupa de mendigo. Ouvi dizer que já não dizia - Inda no bieram! Ouvi dizer que perdera até o ar de tímido contentamento.
Nunca mais trouxe os últimos mexericos da semana, nunca mais: - Quando é, quando é? Nunca mais: - Quinta-feira, quinta-feira!
Quem se lembra do Abílio?
Até hoje, em Aguim, deixaram de batizar as crianças com esse nome, um nome estigmatizado para sempre, apesar de já ninguém saber porquê.
Uma vez vi o Armando da Antes e o Abílio juntos. Duas fantasias diferentes e aparentemente incompatíveis interagindo.
A tarde era de Outono, numa altura em que as cores e os cheiros predominantes em Aguim transmitiam uma calma de fim de jornada, como se algo turbulento e cansativo tivesse finalmente serenado e todas as coisas se preparassem para um descanso prolongado.
Sentados no rebate da porta da capelinha de S. José.
Não fossem as roupas de mendigo, os pés descalços e as calças invariavelmente curtas para a perna, e pareceriam dois homens de negócios parlamentando com civilidade.
Gestos assertivos, rostos circunspectos, posturas comedidas.
Que mundo de ilusão assim se realiza, que universo íntimo e intransitivo existe na mente de um homem, que se abre e descodifica mal depara com o afeto fraternal de um ser com a sua conformação?
Dois seres proscritos pelos que julgam entender muito mais do mundo e julgam estar muito mais perto da realidade, unidos na sua marginalidade.
Afinal é sempre tão pequena a diferença entre todos nós que parece impossível não nos entendermos tão bem como o Abílio e o Armando da Antes, ao menos quando ficamos a sós com os nossos problemas comuns. Mas seria preciso abandonarmos as demenciais fantasias de poder e de domínio, de ostentação e de autoapologia.
Sentemo-nos no rebate de uma capelinha num dia em que as cores e os cheiros do Outono pareçam convidar a um repouso prolongado, condenemos à permanência no mundo das verdades adquiridas aqueles que se gabam de nos expulsar dele, e os instrumentos que tocarmos não serão jamais troços de couve nem empas de vinha e não seguiremos nenhum lunático, mas o mais competente regente de orquestra.
Ou, suprema felicidade, que os instrumentos continuem a ser esses, mas que um dia olhemos para trás e sejamos nós mesmos a corrigir apenas com o olhar reprovador o músico desalinhado da formação em parada da nossa grande filarmónica. E que seja essa a única ascendência sobre os outros a que tenhamos direito.


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Psicoterapia

Boa tarde senhor doutor! Dá-me licença? Obrigado!
Estou bem. Pelo menos, quando mal, sempre assim. Há um ano que andamos nisto, e eu é que gostaria de saber se estou bem. Eu sei como me sinto, mas queria saber a sua opinião.
Eu venho aqui, falo, falo, o senhor doutor vai acenando com a cabeça, escreve umas coisas nesses papéis e no fim vou para casa e volta tudo ao mesmo. Às vezes parece que estive aqui a confessar-me; até fico admirado por não me receitar uns pai-nossos e umas ave-marias.
Mas quando chego a casa a Zulmira olha para mim e diz “Atão como correu?”, como se eu viesse de um exame de condução, e eu olho para ela a perguntar a mim mesmo porque é que ainda não me pediu o divórcio. Aquela mulher ama-me, ou há muito que não estaria comigo, e eu vivo com ela por preguiça. Não é bem preguiça, é uma coisa difícil de explicar; tenho medo de precisar de fazer uma pergunta e não ter ninguém para me responder ou de querer explicar alguma coisa a alguém para eu próprio acreditar no que digo e descobrir que sou a única pessoa no mundo.
Arranjamos companhia, casamo-nos, vivemos juntos; tudo para arranjar uma testemunha para as nossas vidas. Sem uma testemunha como poderemos provar que vivemos? Não sou feliz com a Zulmira, mas ser infeliz sem companhia ainda seria pior. Preciso dela, mas preciso dela como preciso dos sonhos. Preciso que a sua presença aconteça para que os meus dias sejam mais do que uma noite escura.
Preciso de olhá-la, a ver se todo o amor que senti por ela ainda existe em mim; dado que o amor, uma vez sentido, já não pode arrepiar caminho. Mas amar é um verbo que ao ser conjugado no pretérito se anula no presente. Porém devo ter guardado em mim muito amor por ela, embora não o sinta, porque tenho consciência dele fazendo peso na alma.
Quando olho para ela sou feliz por um instante, porque sinto que o mundo não é completamente desabitado. Ela sai-me da frente e o mundo torna-se uma coisa pesada que tenho que levar sobre os ombros. E pesa-me mais a cada dia que passa.
E às vezes vem-me de repente esta vontade de sair à rua para me vingar de um mal que me fizeram, sem saber já quem é o culpado, de ir caminhando por entre as gentes como uma bomba-relógio, mas com o relógio noutro fuso horário qualquer para nunca saber se o fim está próximo e poder gozar da surpresa. Ir caminhando como um grito em todas as modelações do som. Eu, um grito. Todas as células do meu corpo numa histeria de som que as pessoas não ouvem porque são surdas à voz da consciência. Um grito que vai crescendo e um dia rebenta. Não para fazer mal aos outros, mas para me vingar da felicidade que me é estranha, para acabar de vez com a felicidade, que é a causa de toda a minha desilusão.
Um kamikaze mental, é o que eu sou, senhor doutor. Escreva aí no seu relatório: “sofre da síndrome do kamikaze” e receite-me dois pai-nossos para depois das refeições.
Já me lembrei de ir a Fátima a pé, mas não para pedir um milagre à Virgem, não; era só para sentir a esperança das pessoas que pagam a felicidade caminhando. Eu daria a volta ao mundo por um momento de esperança; nem precisava de ser feliz, apenas queria poder olhar a Zulmira como da primeira vez que fizemos amor. Eu a tirar-lhe a alça do vestido e o fio da alça a descer pelo ombro e o ombro a ficar nu, só porque aquele fiozinho lhe passava por cima. Tudo por causa da maneira como eu olhava para ela. Agora ela deita-se a meu lado sem roupa nenhuma mas não fica nua. Imagino que fique nua quando se despe para o amante e que a nudez comece ainda quando ela está vestida e alisa o vestido sobre a coxa, só para sentir a coxa por baixo do vestido. Sim, senhor doutor, a Zulmira tem um amante; não é bem um amante, é um parceiro sexual. Sei isso porque ela ainda traz um bocadinho da nudez quando regressa a casa.
Claro que não me importo! Ela dá-lhe o prazer que não me pode dar a mim e recebe um olhar que a vê nua, e não apenas despida, um olhar que se surpreende quando a calcinha já caiu e a marca do elástico desenha a fronteira do pudor a descoberto. Ia a Fátima a pé para voltar a ver essa marca da candura exposta, e não apenas um vergão do elástico.
O meu maior mal, senhor doutor, é ter vivido a crueldade sem pudor nem escrúpulos, é ter convivido com a nudez dos corpos para além da própria pele, e agora não consigo recuperar a inocência de um olhar superficial.
Não me estou a fazer de vítima, não; eu sou realmente uma vítima. Combati, sim, mas os soldados são as primeiras vítimas das guerras onde, quase sempre, são obrigados a combater; e são as últimas, porque quando a guerra acaba eles carregam-na consigo até ao fim das suas vidas.
Como se faz marcha atrás nesta viagem, senhor doutror? Isso é o que eu preciso de saber. Eu sofro de ter memória, é essa a minha doença; não consigo viver apenas no momento atual, todo o filme da minha vida está presente a toda a hora. O radiotelegrafista morre todos os dias à minha frente, o corpo a estrebuchar, lutando pela vida, e depois de um último estremecimento, a descontrair completamente com um suspiro de alívio por deixar esta vida, e por fim o rosto a perder lentamente todo o medo, toda a cólera e toda a culpa, até ficar completamente inocente. A candura da morte.
Se não há nada que me possa fazer para me tirar isto do filme da minha vida, que faço eu aqui?
Quando digo estas coisas à Zulmira, ela fica incomodada; ao menos ela chateia-se comigo. “Oh home bota outras coisas na cabeça.” E eu tentando ver se ainda havia mistério por baixo da saia dela. Dantes, ela cruzava as pernas e eu ficava com o sangue a ferver, os dedos inquietos. Agora não há mistério nenhum.
E quando aparecia de repente sem eu contar e toda a sala se iluminava? Eu não a amava como se ama uma mulher, eu sentia numa epifania com o milagre da sua presença. Mas isso perdeu-se. Ou antes, o espaço que havia em mim, em que se encaixava tudo isso, já não existe, está cheio do lixo da memória que eu não consigo deitar fora. Eu conheci a morte, senhor doutor, não a morte como fatalidade, mas a morte como propósito. Mas não julgue que é por fraqueza que sofro com isso, não, voltaria a pegar numa arma se tivesse uma boa causa para isso, mas era preciso voltar a ser inocente e ignorante e sobretudo crente, e eu perdi essas virtudes; hoje sei demais para pegar de novo numa arma. A cada tiro que se dá vai um bocado da nossa inocência com a bala, e não volta mais, e depois, quando olhamos para uma mulher despida vemos apenas um corpo, uma anatomia, e não uma vertigem, um milagre da Natureza. O que eu preciso, senhor doutor, não é de estar aqui a confessar-me, o que eu preciso é que me façam desaprender a guerra, que me restituam a ignorância, que me devolvam o erotismo de um ombro de mulher, quando a alça do vestido ao descer transforma o seu corpo ainda vestido na mais provocante nudez. É por isso que a certas horas do dia me sinto uma bomba-relógio, um kamikaze, um grito, um peregrino da desesperança caminhando entre multidões ainda atónitas com os milagres do mundo.
E depois dizem-me que a guerra que se trava dentro do meu ser não é a mesma guerra onde combati, como se a guerra fosse apenas uma troca de tiros e não uma doença sem cura, um cancro, um canibalismo da memória que nos vai consumindo sem piedade.
O quê, já terminou a consulta? Parece que estive a falar apenas dois minutos.
E então, senhor doutor, acha que estou melhor?


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